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Lyrin e Aldon

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  • Lyrin e Aldon

    Lyrin e Aldon
    — Cinco.
    — Cinco é impossível, Lyrin.
    — Você pediu um número, eu te dei um número. É bem tranquilo para alguém da Guarda Real, não? - Ela viu ele contorcer o rosto em uma careta.
    Lyrin era uma sacerdotisa de médio nível que viveu em Pillai a vida toda. À sua frente tinha Aldon, um jovem cavaleiro vestindo uma cota de malha simples. Ao seu lado, uma armadura cintilava à luz do sol, como se reluzisse toda a honra de um novo recruta da Guarda Real.
    Para Lyrin, Aldon era só um moleque sujo de terra que vivia a duas vielas da sua casa. Para Pillai, ele era o símbolo de orgulho.
    — Sabe, você nunca me contou como é.
    — Como é o que?
    — Ser da Guarda Real. Você quis isso a vida toda. - Ela diz vendo os pequenos reflexos de sol na água. Ele respira fundo, olhando para frente e mantendo a boca como uma linha reta. Não sabia o que dizer.
    Não tinha um momento importante da sua vida que Lyrin não tinha participado. Foi ela que conseguiu sua primeira espada decente com o Ferreiro Dfrain, depois de ficar horas pegando ouro escondida de outras pessoas enquanto enfrentavam hordas e hordas de monstros estranhos. Foi ela que ficou horas o curando enquanto procurava mel de Cães-Abelha, mesmo que detestasse fazer isso. Ela foi seu primeiro senso de perda na vida, quando assistiu ela voltar desfigurada de uma missão, sem consciência.
    Ele encarou a moça pequena, vestida em um roupão branco e roxo já puído nas pontas, enquanto o reflexo do sol na água batia nas cicatrizes que seu rosto guardava. As cicatrizes que nunca a deixariam voltar para as linhas de frente.

    Respirou fundo e encontrou uma resposta.

    — É engraçado.
    — Engraçado?
    — É, engraçado. As pessoas me tratam diferente. Como se eu nunca tivesse sido a criança mais irritante daquela cidade. - Ele franze a testa. - Não que eu ache ruim, mas me colocam em um pedestal que não sei se realmente pertenço. Eu sou um novo recruta, não o Mestre Raymon. Não sou um messias.
    — Se você é um messias, Priston realmente está perdido. - Ela abriu um sorriso, fazendo as cicatrizes franzirem.

    Lyrin nunca foi uma sacerdotisa usual. Mesmo sendo criada em meio de seres que sempre visaram a pureza e a santidade, Lyrin amava usar seus talentos mágicos quase sempre de forma ofensiva. Era uma poderosa curandeira, mas seus feitiços eram utilizados com muito mais maestria quando voltados ao ataque. Não era comum alguém de sua classe ter esse tipo de abordagem porque sacerdotisas geralmente não desferiam tanto dano e, se assim fizessem, poderiam ficar frágeis demais, o que atrapalharia o suporte que poderiam fornecer ao grupo.

    Mas ser uma curandeira nunca lhe apeteceu.

    Costumava treinar escondido com Magos e Atalantas quando adolescente, ainda na Academia. Utilizou das técnicas aprendidas para conseguir usar o máximo potencial que conseguia de suas habilidades - como Magos, que eram famosos por seus altos danos em área -, e a destreza de se esquivar dos seus oponentes - como as Atalantas. Não se tratava só de energia, de mana - mas de resistência e posicionamento. Não era tão boa quanto eles, mas era o suficiente para sobreviver em batalha.
    A ousadia das suas formas de treino não lhe deram reconhecimento e honra na Academia, mas ela pôde finalizar seus estudos. Após isso, dedicou boa parte do seu tempo para ajudar o pai na Loja de Poções e usava o tempo livre em caçadas nos calabouços antigos e escondidos junto a Aldon.
    Gostava da adrenalina de atiçar Igolanos, esquivá-los e atraí-los da forma que ela conseguiria derrotá-los todos de uma vez. Frequentemente precisava utilizar pergaminhos quando era abatida distraída, mas levantava sempre rindo, voltando a atacar, correr, saltar e atacar de novo.

    Aldon sempre foi moleque, mas era mais sério em batalha. Se Lyrin lembrava de Aldon usar dois pergaminhos em todas as caçadas, já era muito.
    Aldon sempre gostou de ter sido designado cavaleiro. Também nunca tinha sido considerado um talento nato, pelo contrário - nas provas de qualificações, era considerado bem mediano até encontrar Lyrin. Era o tipo de garoto que sonhava em ser da Guarda Real, mas era tão perdido que achava que o destino já estava traçado e no máximo terminaria como Longbo - um curioso vagando pelos desertos e cidades mórbidas de Priston.
    Era Lyrin que sempre teve o espírito aventureiro que o abraçava e levava junto. Não de um jeito cativante - Lyrin era muita coisa, mas não era charmosa. Mas quando ela lhe fazia um convite, falava com tanta naturalidade e empolgação que se fosse para mergulhar para o Santuário do Abismo sem nenhum recurso para respirar lá, ele prontamente iria. Ela o desafiava, e eles acabaram encontrando sinergia assim.
    Foi com ela falando sobre os calabouços, templos e torres sem fim que ele acabou treinando muito mais fora da Academia do que nas aulas com a professora Snake. No segundo ano de estudos, acabou tendo melhora nas avaliações e conseguiu se formar com certas regalias. A principal delas o levou a receber a armadura que jazia ao seu lado: uma carta de recomendação do Mestre Raymon para o Comandante Derik como potencial recruta.

    — Aldon? - De repente, foi sugado à realidade. Chacoalha levemente a cabeça e se vira à Lyrin com uma sobrancelha arqueada. - A pedra.
    Ele olhou para a pedra lisa nas mãos e depois pro lago que parecia dançar na Floresta das Ilusões. Segurou-a firmemente, virou de lado e a lançou torcendo que quicasse algumas vezes.
    Uma. Duas. Trêsquatro e desapareceu.
    Ele bufou e Lyrin abriu um novo sorriso, estendendo a mão para ele. Ele respirou fundo, buscou sua sacola pela roupa e puxou o objeto em tecido com cautela. Remexeu por algumas coisas lá dentro e retirou algo que parecia uma joia. Era dourada com um adorno rosa no centro, geralmente conquistada em locais perto das linhas de frente. Depositou a joia na mão de Lyrin, que permanecia com um sorriso travesso estampado.
    Lyrin colocou a pedra cintilante entre os dedos e a direcionou contra o sol, examinando seus detalhes.
    — Deve ter milênios que não vejo um Ordo.
    — Você nunca vai à Ricarten. Tem guerreiros que vendem centenas desses. Os fominhas perto do Moriph também devem oferecer um monte.
    Lyrin parou de examinar a pedra, sentindo uma pontada no peito. Desfez a careta arteira e franziu as sobrancelhas, adquirindo um tom mais severo na voz.
    — Não tenho muito interesse em conversar com Tempskrons, ou pessoas que compactuam com eles. Vivo bem na nossa comunidade. Minha cota de convivência com gente fora dela já é bem suprida por você. - Lyrin suaviza a expressão e olha para Aldon, que estava de sobrancelhas levantadas, quase rindo. Ela mete-lhe um tapa forte no braço. - Não de uma forma romântica. Ou exclusiva. Valorizo quem me valoriza.
    — Uhum. - Aldon ri, esfrega o braço e volta o olhar para o restante da floresta. Sabia que contradizer Lyrin não iria adiantar muita coisa.

    Já fazia dois anos desde o incidente.
    Apesar de Lyrin não ter se formado com louvor, ela tinha certa fama entre guerreiros das linhas de frente pelo jeito peculiar que lutava ao lado de Aldon. De longe, pareciam dançar em meio aos monstros. Frequentemente, Lyrin se enfiava dentro da multidão de amaldiçoados até quase desaparecer, atraindo-os para ela. Por um momento, só se via Aldon girar a espada e o chão reluzir, enquanto os monstros ficavam sem saber quem alvejar. Lyrin saía astuta pelo outro lado, às vezes com um arranhão ou dois, dava a volta no aglomerado de Igolanos, fazendo-os se juntar em um meio e rodopiava o cajado sorridente, acertando todos de uma vez. Quando vinham alvejá-la, Aldon alternava entre habilidades ofensivas e defensivas para segurá-los, enquanto se via ela estar em constante ataque, fazendo com que relâmpagos atingissem quem estivesse na sua frente. Se se aproximasse um pouquinho deles, conseguiria ver rapidamente a ilusão de asas pairando nas costas de Lyrin - momentos pontuais e assertivos que ela curava Aldon para que ele pudesse continuar na vanguarda. Era como se não tivessem medo.
    Foi com esse sentimento que Lyrin e Aldon foram recrutados oficialmente para as linhas de frente. Durante uma das batalhas contra Midranda, em uma reunião entre os líderes de classes e os comandantes do continente, Gallia, a líder das Guerreiras, sentiu que poderiam não sobreviver ao que estava por vir. Ao discutirem alternativas e estratégias para as tropas que enfrentariam Midranda, o líder dos Cavaleiros, Naratus, sugeriu abraçarem guerreiros que tivessem estilos de luta diferentes, como Aldon e Lyrin.
    Apesar de lutarem bem juntos, foram designados a equipes diferentes para que pudessem trazer o pensamento crítico e alternativo ao máximo de pessoas possíveis.
    Quando a Guerra Civil causada por Heres estourou, Aldon estava reparando seus equipamentos em Pillai, mas Lyrin estava em batalha. O que contam é que ela estava em uma das suas estratégias de atrair Igolanos quando um mecânico ao seu lado lhe enfiou a garra no rosto. Ela rasgou da testa até a bochecha de Lyrin, e, em um lapso de consciência recobrada - ao menos no que acreditaram que era -, o mecânico assustou e soltou a garra das mãos. Ao fazer isso, fez força para frente, fazendo com que uma das pontas perfurasse a bochecha e a garra ficasse alocada entre os dentes da sacerdotisa. Tudo durou um piscar de olhos. O mecânico fugiu logo depois. Há relatos de terem o encontrado alguns dias depois, os olhos vermelhos cintilando fúria.
    Lyrin chegou em Pillai ainda com a garra fundida com o rosto, e um lado inteiro recoberto de sangue. Aldon já tinha presenciado muita coisa ao enfrentar Igolanos, mas nunca algo lhe doera como foi ver Lyrin sendo carregada daquela forma.
    Ela nunca mais vestiu seus roupões de batalha, muito menos voltou a evoluir. Por isso, permaneceu em níveis que já não permitiam que entrasse nas linhas de frente.
    Aldon por um instante sentiu um frio percorrer a espinha. Esse tipo de lembrança o amedrontava.
    Lyrin permanecia quieta ao seu lado, o olhar sombrio e aéreo. Aldon percebeu que o dia começou a escurecer.

    — Ei, Lyrin. O que acha de voltarmos à Pillai? Nessa época do ano sempre há alguma invenção do Midranda em hordas noturnas. - Lyrin permaneceu quieta. Aldon toca seu braço gentilmente, franzindo a testa de preocupação.

    — Lyrin?

    Pacientemente, ela levanta a cabeça, pendendo-a para trás, de olhos fechados, e solta um suspiro profundo.

    — Como é bom estar de volta.

    Lyrin abre os olhos e um sorriso que parece rasgar o seu rosto. Aldon sente todos os músculos paralisarem e seu estômago bater na garganta.

    Seus olhos eram vermelho-sangue.


    ___________________

    Bom dia!
    Percebi que nunca postei nesse Fórum, então acho justo me apresentar.
    Prazer, sou a Misuke, ex-jogadora (se eu logo a cada 6 meses~1 ano é bastante atualmente hahaha) e atual futriqueira ocasional do Fórum.
    Recentemente quis voltar a escrever com mais frequência, e Priston sempre foi fonte de pequenos surtos de criatividade (apesar de ter compartilhado apenas historinhas pra eventos dentro de clã). Lyrin e Aldon (pois é, não rolou um título melhor) foi um continho que me veio na cabeça entre um pedido e outro no estágio e acabou que eu gostei bastante. Depois de receber feedbacks muito amorzinhos sobre ele, decidi postar.
    Só não sabia bem a área correta... Não é uma história da minha jornada, e também não é bem uma história muito oficial do Priston (apesar de ter pesquisado e incorporado elementos da história de eventos pra trazer um contexto), mas deixei aqui de qualquer forma porque tinha mais movimentação e textos diversos. Caso não seja a área correta, por favor, sintam-se livres pra mover o tópico!
    Espero que gostem! Qualquer feedback é imensamente bem vindo. =))


  • #2
    Hino maravilhoso de mulher!
    Cê faz a gente imergir na história dum jeito tão apaixonante, que no final, a gente tá tão aflito quanto o Aldon, no desespero de saber que qui deu errado!
    E o jeito que você descreve as aventuras dos dois? Me fez olhar pros primeiros passos de um jeito bem mais gracinha. Passa tão batido pra gente o quanto é difícil fazer as primeiras quests, o quanto já estamos acostumados e acabamos fazendo de olhos fechados e no modo automático, e o tanto que pode ser perrengue pra quem não tá tão familiarizado, que seu jeitinho de falar da amizade dos dois põe a gente do ladinho desses momentos importantes, e me faz lembrar que não foi importante só pra eles.
    Você conseguiu a proeza de trazer situações cotidianas com tanto amooor, que deu até vontade de reviver esses momentos só pra sentir as mesmas emoções.
    Dona moça, continue essa história POR FAVOOOR, que eu preciso duma continuação. Cê não me deixe na mão desse jeito não, que eu vou ter um treco!
    Tá sensacional! Maravilhosoooo!!!

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    • Misuke
      Misuke comentou
      Editando um comentário
      CADÊ MINHA CARINHA BONITINHA DO WHATSAPP PRA PÔR AQUI
      Com uma amiga e leitora dessa, quem precisa de mais???
      Muito muito obrigada por tanto apoio e eu fico MUITO feliz que você tenha curtido! Sua opinião vale demais pra mim!!!

      Sobre continuação: eu confesso que gosto da ideia de deixar o que aconteceu com a Lyrin a cargo de quem tá lendo...

    • Gabirela
      Gabirela comentou
      Editando um comentário
      Bom... é Priston, né. Só consigo imaginar o sangue que veio depois! HDISUHDUISAH
      Eu amei demais!!

  • #3
    a tua cara isso ai Higurashixxx

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    • Higurashixxx
      Higurashixxx comentou
      Editando um comentário
      SIIIMMMM, Mano, Vllw por me marcar *------*

  • #4
    AAAAAAAAAAAAAA, QUE COISA MAIS PERFEITA, SANTA IDHAAASSS *000*
    Eu me senti como se estivesse assistindo um filme no BPT; Cada detalhe que você coloca faz a gente sentir tão de pertinho o que os personagens estão passando; Estou Muuiiito Apaixonada pela História e pelos personagens que tu trouxe

    MOÇA, Eu imploro, Manda uma continuação, Pllsss

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    • Misuke
      Misuke comentou
      Editando um comentário
      Sei nem como reagir. Tão bão ver gente curtindo. Muito muito obrigada!
      Não sei se seria tão legal uma continuação (gosto do misterinho), mas se vier algo legal pra história, com certeza eu trago!
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